
O governo colocou R$ 1,2 bilhão para o seguro rural no Projeto de Lei Orçamentária de 2027. O número não é razoável. É insuficiente e, pior, ilusório.
Dos R$ 1,2 bilhão anunciados, apenas R$ 318,5 milhões aparecem no Orçamento como recursos livres. Os outros R$ 881,5 milhões, equivalentes a 73,5% do total, estão condicionados à chamada Regra de Ouro e dependerão de nova autorização do Congresso para serem utilizados.
Portanto, o produtor precisa entender exatamente o que está sendo oferecido: existe uma previsão de R$ 1,2 bilhão, mas dinheiro previsto não é dinheiro liberado. E, no Brasil, essa diferença costuma aparecer quando a lavoura já está plantada, o risco climático já chegou e a janela de contratação do seguro já passou.
Mesmo que todo o R$ 1,2 bilhão fosse executado, o programa continuaria muito aquém da necessidade. Estudo do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro calcula que seriam necessários R$ 2,37 bilhões para o país voltar ao nível de proteção alcançado em 2021, quando o programa apoiou cerca de 209 mil apólices e cobriu 13,45 milhões de hectares.
Ou seja: o valor apresentado pelo governo corresponde a pouco mais da metade do necessário apenas para recuperar uma cobertura que o Brasil já teve. Se considerarmos somente os recursos livres, a parcela cai para 13,4% dessa necessidade. Na prática, o governo não amplia a proteção. Apenas administra a escassez.
O histórico recente também recomenda desconfiança. Em 2026, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural teve R$ 461,7 milhões bloqueados. A experiência mostra que constar do Orçamento não assegura execução, não garante previsibilidade e muito menos significa que o dinheiro chegará antes do plantio.
A contradição se torna ainda maior diante do cenário climático. A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, aponta probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027. Isso não permite afirmar, com antecedência, onde haverá seca ou excesso de chuva no Brasil. Mas confirma que o risco de extremos aumentou e exige preparação.
É justamente quando a incerteza climática cresce que o seguro deveria ganhar escala, previsibilidade e recursos. O governo, porém, faz o contrário: oferece um orçamento insuficiente e deixa a maior parte dele condicionada.
Depois, se a safra quebrar, virão as reuniões de emergência, os pedidos de prorrogação, as renegociações de dívidas e as linhas especiais de crédito. O país continua preferindo discutir o socorro depois do prejuízo a construir a proteção antes dele.
A conta é cara e quase sempre chega tarde demais.
O Rio Grande do Sul é hoje o retrato mais evidente dessa incoerência. O produtor gaúcho vem de uma sequência de estiagens, enchentes, perdas de safra e endividamento. Na pecuária leiteira, enfrenta margens apertadas e insegurança. Em muitas propriedades, a pressão financeira deixou de ser apenas um problema econômico e passou a atingir a saúde emocional das famílias rurais.
É nesse mesmo estado que a Expointer abre suas portas e recebe políticos, candidatos e lideranças de todos os partidos. Eles caminham pelos pavilhões, tiram fotografias, cumprimentam produtores e repetem que o agro é prioridade.
Não há problema algum em políticos frequentarem a feira. O problema é sair dela, voltar a Brasília e deixar o seguro rural novamente na fila do contingenciamento.
Se o agro é realmente prioridade, isso precisa aparecer no Orçamento. Prioridade sem recurso livre, sem calendário de execução e sem garantia de liberação é apenas discurso de palanque.
Também é preciso perguntar pela chamada bancada ruralista. Em períodos eleitorais, não faltam parlamentares dispostos a se apresentar como representantes do campo. Mas a representação política não se mede pelo número de fotografias em feiras, pela quantidade de discursos ou pela frequência com que alguém pronuncia a palavra agro.
Mede-se pela capacidade de transformar discurso em decisão.
O contraste dentro do próprio Orçamento é brutal. O PLOA reserva R$ 44,8 bilhões para emendas parlamentares individuais e de bancadas estaduais. É um valor 37 vezes maior que toda a previsão para o seguro rural e cerca de 140 vezes superior à parcela livre do programa.
Evidentemente, nem toda emenda é desnecessária. Mas o contraste mostra que, quando há força e interesse político, o dinheiro encontra proteção no Orçamento. Para o seguro rural, sobra a dependência de uma autorização futura.
O Congresso ainda pode corrigir o Orçamento de 2027, elevar os recursos do seguro rural e retirar a incerteza que pesa sobre a maior parte da verba. Se isso não for feito, ficará difícil sustentar que o produtor é prioridade.
Uma bancada que não consegue assegurar proteção mínima contra o clima corre o risco de ser ruralista apenas no nome.
O produtor já entra na próxima safra pressionado por juros elevados, margens menores e dívidas acumuladas. Sem seguro, um evento climático não destrói apenas a produção. Desorganiza o fluxo de caixa, compromete o pagamento do financiamento, reduz o investimento seguinte e empurra a propriedade para a renegociação ou para a recuperação judicial.
O seguro rural não elimina o risco comercial, não garante preço e não resolve problemas de gestão. Mas impede que uma seca, uma enchente ou uma chuva fora de hora transforme uma dificuldade produtiva em insolvência financeira.
Além disso, é uma política que multiplica a capacidade de proteção. Segundo a FGV Agro, cada real de subvenção pode sustentar cerca de R$ 28,30 em capital segurado.
É muito mais racional ajudar a pagar o seguro antes da perda do que gastar bilhões renegociando dívidas depois da quebra.
O Brasil conhece o diagnóstico. Falta liderança para enfrentar a causa.
O desequilíbrio das contas públicas mantém os juros elevados e comprime os recursos para políticas que poderiam evitar prejuízos maiores. Ao mesmo tempo, governo e Congresso disputam cada pedaço do Orçamento pensando na próxima eleição, na próxima emenda e na própria sobrevivência política.
É uma espécie de autofagia: o sistema consome a base produtiva que ainda sustenta o país para preservar a estrutura de poder que impede o país de avançar.
Há um caminho objetivo. O Congresso deveria elevar o seguro rural a pelo menos R$ 2,37 bilhões, transformar essa verba em recurso efetivamente disponível, estabelecer um calendário de liberação compatível com o plantio e criar uma proteção permanente contra contingenciamentos. O Brasil também precisa avançar em um fundo de catástrofe que dê estabilidade ao sistema diante de eventos extremos.
Reforçar o seguro rural significa proteger produção, emprego, renda, exportações, crédito e abastecimento.
Na hora da fotografia, o agro é prioridade. Na hora do Orçamento, o risco fica com o produtor.
Um país que espera a tragédia climática para descobrir a importância do seguro não está fazendo política agrícola. Está apenas fazendo campanha.
