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Como se fazem as boas cidades

11/02/2014 às 14h00
Por: Redacao Fonte: Dourados News
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Em janeiro último tive oportunidade de visitar Londres. Em uma dada segunda-feira a noite eu e minha esposa decidimos assistir a uma apresentação no Teatro Novelo. A casa de espetáculos ficava situada na Strand, uma conhecida avenida da cidade. Como o show estava previsto para terminar às 22:00 horas e tínhamos que retornar de metrô, cuja estação situava-se a mais de 500 metros do teatro, fui tomado pela preocupação de ter de caminhar tarde da noite por uma distância de meio quilômetro em um local que pouco conhecia para alcançar a referida estação.

Para agravar meu receio, ao sairmos do teatro nos deparamos com uma garoa que caia com bastante disposição de varar a madrugada. O tempo carrancudo aprofundou ainda mais meu temor com a perspectiva de uma caminhada em rua deserta, em baixo de chuva e em um local estranho o que evidentemente nos promovia a condição de alvo potencial dos meliantes do pedaço. A essa altura já me arrependia pela atitude inconsequente que nos enredou naquela situação de risco assegurado.

No entanto, para meu sincero espanto, apesar de ser tarde da noite, em plena segunda-feira e do tempo mau humorado - além da garoa teimosa, um frio de 7 graus - a avenida encontrava-se tomada de pedestres que congestionavam suas calçadas, transformando a rua em um local pleno de vida e vibração. Até mesmo a travessa, aliás mais justo seria classificá-la de beco, que cruzava a Strand e que tivemos que adentrar para acessar o metrô, reunia um movimento surpreendente de pessoas que imaginei estar ocorrendo ali algum evento excepcional. Na verdade, não havia evento algum, aquela era a situação corriqueira daquelas ruas.

O medo foi substituído por uma sensação de estarmos circulando por um local não apenas seguro, mas, sobretudo animado e surpreendente, o que fez uma caminhada as dez e meia de uma noite fria e molhada de garoa valer muito a pena.

Em quantas cidades brasileiras poderíamos vivenciar uma experiência semelhante? Mesmo que aqui nos trópicos tenhamos um clima muito mais convidativo para ocuparmos nossas calçadas e transformarmos nossas ruas em locais vivos e atraentes para as pessoas, o que predomina, sobretudo à noite, são vias desertas de gente. Movimento, só o dos carros na pista de rolamento. Nessas condições, os raros pedestres que, por necessidade, transitam nessas ruas ermas, são justificadamente assaltados pelo medo. Tão logo tenham uma chance, procuram ascender à condição de motorista, esvaziando ainda mais as ruas das pessoas, transformando-as em locais mais vazios e inseguros.

O segredo da vitalidade das ruas é a presença das pessoas. Quando nós as expulsamos e as confinamos dentro de carros que circulam rapidamente por elas, nós as desvitalizamos, as transformamos em espaços mortos que repelem as pessoas. Uma cidade que cultiva esse tipo de rua, torna-se paulatinamente um lugar não apenas sem vitalidade, mas crescentemente inseguro. Aliás, a forma mais eficaz e de baixo custo de promover a segurança é incentivar o surgimento de ruas movimentadas, com grande quantidade de pessoas circulando.

Mas, qual o segredo para termos ruas vivas e convidativas para as pessoas? A observação, ainda que superficial, de algumas características da Avenida Strand nos oferece certas pistas. O fator decisivo é, sem dúvida, a mistura de atividades presente naquela via. A Strand é uma rua ladeada de ambos os lados por edifícios justapostos de 4 a 7 andares. Os andares térreos destes prédios são ocupados pelo comércio, mas também, em boa medida, por uma diversidade de restaurantes, docerias, cafés e teatros. As lojas de comércio fecham às 19:00 horas, mas todas as outras atividades permanecem abertas até tarde da noite. Os andares acima do térreo correspondem a apartamentos residenciais que abrigam um contingente grande de moradores.

Assim, nos diferentes horários do dia sempre há motivos para as pessoas transitarem por aquela avenida. No início da manhã e da noite são os moradores que saem ou retornam do trabalho, no resto do dia são as lojas de comércio que mobilizam os seus clientes. E a noite são os restaurantes, cafés, docerias e teatros que atraem para a rua grandes levas de frequentadores.

Mas, um aspecto decisivo, é que essa rua não seria tão bem sucedida se não contasse com diversas opções de transporte coletivo pontual, confortável e eficiente. Vários pontos de ônibus, duas estações de metrô na redondeza e uma ciclovia o que garante um acesso fácil e eficaz para todos. Claro que suas calçadas largas, totalmente niveladas e com manutenção impecável são a cereja do bolo que convida os seus usuários a compartilhar com entusiasmo esse espaço onde transborda vitalidade e alegria. Ainda que não sejam suficientes, essas características certamente são indispensáveis para gerar as boas cidades.

Mário Cezar Tompes da Silva

Professor de Planejamento Urbano da Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD.

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