Cerca de 50 famílias que invadiram ontem (8) a noite um terreno onde seria instalado o residencial Estrela Guassú, próximo à Via Parque, na região do bairro Jardim Clímax, se mantém acampadas na área destinada à construção de casas populares, obra que está parada há pelo menos um ano.
No local, onde há apenas algumas estruturas das casas em uma área tomada pelo mato e a lama, o grupo começou hoje (9) pela manhã a organizar o acampamento, montando barracas e carpindo. As estruturas inacabadas tiveram as paredes de tijolo marcadas com os nomes das pessoas que tomaram para si o espaço.
A reportagem do Dourados News conversou com algumas das famílias acampadas, como a de Patrícia dos Santos Silva, 31. Junto dos quatro filhos, com idades entre nove e 14 anos – sendo o de nove anos, uma menina portadora da síndrome de down – e também do marido, ela montava uma barraca de lona em um espaço do terreno.
“A gente resolveu invadir aqui porque não tem mais condição de ficarmos esperando uma solução que não vem. Faz nove anos que estou a espera de uma casa da prefeitura, me inscrevi certinho, tenho prioridade porque tenho uma filha especial e ainda assim nada mudou. Não tenho condições de pagar aluguel”, disse ela, que morava em uma casa na Vila Cachoeirinha, onde pagava R$ 250.
Desempregada, Patrícia diz que resolveu se juntar ao grupo que invadiu a área pela impaciência. “Queremos uma satisfação, já esperamos demais. A gente precisa da casa e vê gente ganhando até mais de uma, vendendo, alugando, gente que não precisa e é sorteada”, acusou.
Também vinda da Vila Cachoeirinha, a cunhada de Patrícia, Karina Dias, 25, foi para o local com o marido e os dois filhos, de um ano e meio e cinco anos. Ela disse que está há pelo menos cinco anos inscrita no programa de habitação, e reclamou da demora. “Se não for assim, invadindo, não vão resolver nunca. A gente precisa e fica sofrendo com uma espera que nunca acaba”.
“Só vamos sair se for para uma casa”
O servente de obras Jeferson Cano Mariano, 22, também é um dos acampados, junto da esposa de 17 anos e da filha de um ano e seis meses. Ele também morava na Vila Cachoeirinha, pagando um aluguel de R$ 500, e disse estar inscrito no programa de habitação há quase dois anos.
Mariano afirmou à reportagem que nenhuma das famílias que estão no local está disposta a sair, e que outras estão chegando desde ontem à noite.
“Ninguém vai sair daqui, pode vir quem for. Só vamos sair daqui para uma casa, ou queremos que a prefeitura nos deixe ficar aqui que nós mesmos nos viramos para construir. Não dá mais para ficar do jeito que está”, disse ele, que também foi um dos que reclamou da política municipal de sorteio de casas populares. “Todo mundo sabe que tem gente ganhando que não precisa, e nós aqui nada”.
Criscyelly Espíndola Medeiros, 18, foi uma das que conseguiu ficar com um dos espaços com estrutura inacabada. Natural de Nioaque, mas moradora da Vila Cachoeirinha, ela diz que nem ela nem o marido estão dispostos a sair com o filho de 11 meses.
“Não dá mais para esperar, estamos passando fome, não tem condições de pagar aluguel. É uma demora infinita para darem a casa para a gente, que precisa, e enquanto isso tem gente não precisando que recebe. Com a gente aqui, acampado, quero ver eles não darem uma solução”.
Segundo prefeitura, famílias terão que sair
Procurado pela reportagem do Dourados News, o secretário municipal de planejamento, Gerson Schaustz, que responde pelo setor de habitação, informou que a obra para construção de casas populares está paralisada porque a construtora responsável pelo empreendimento, que é fruto de uma parceria entre governo federal e municipal, abandonou o projeto.
“Essa obra está parada desde fevereiro de 2013 por causa deste impasse criado pelo abandono da construtora. Desde então, a prefeitura têm buscado uma solução para conseguir dar continuidade ao trabalho”, justificou Schaustz.
Ainda de acordo com o secretário, as famílias não poderão permanecer na área, e deverão ser retiradas – sem prazo definido – pela Guarda Municipal. “Elas vão ter que sair de lá, porque essa é uma ocupação irregular. Além disso, é importante dizer que essas famílias, caso realmente estejam cadastradas, também estão sujeitas a serem penalizadas dentro do programa de habitação, podendo ser retiradas por terem invadido uma área”, ressaltou Shcuatz.
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