
Um trauma que deixou sequelas financeiras e psicológicas, e uma revolta por causa da infeliz certeza da impunidade. Os camelôs que ocupam uma área localizada no cruzamento da avenida Weimar Gonçalves Torres com a rua João Rosa Góes, no Centro de Dourados, conseguiram retomar o trabalho dois meses depois de um incêndio criminoso que destruiu três boxes e deixou um prejuízo de mais de R$ 100 mil aos proprietários, no dia 28 de agosto.
Graças a ajuda de voluntários que tomaram conhecimento do ocorrido e resolveram ajudar com doações de materiais de construção, mão de obra, entre outros, os três comerciantes reabriram o negócio, mas agora convivem com os desafios do recomeço.
“Conseguimos graças a Deus e as pessoas que nos ajudaram voluntariamente voltar a trabalhar, reconstruir o box, e também comprar mercadorias, pois os comerciantes do Paraguai também se solidarizaram com a nossa situação e nos deixaram comprar fiado. Graças a essas pessoas conseguimos voltar ao trabalho, porque não tivemos apoio de nenhuma autoridade pública em momento nenhum”, conta a camelô Simone Kreher Dias, 52, que trabalha há 16 anos no local.
Ela diz que antes do incêndio, já era estabilizada no negócio e conseguia ter lucro, mas que agora trabalha para pagar todo o estoque de mercadorias que teve de repor, em um investimento de mais de R$ 10 mil que ainda precisa ser quitado. Para conseguir dar conta do compromisso, Simone está fazendo uma rifa com uma TV Led 32 polegadas e um kit completo de malas de viagem, que recebeu por meio de doações, e que será sorteado no dia 5 de novembro.
“Demora pelo menos três anos para quem compra um box de camelô começar a ter lucro. Eu to partindo do zero, perdi tudo assim como meus colegas daqui. É um recomeço, e como todo recomeço, é muito difícil. Mas agradeço a ajuda das pessoas porque se fosse esperar político estava aqui sem nada. Agora é seguir como sempre fiz, trabalhando para garantir meu sustento e também o sustento da minha família”.
Apesar de empolgada com o recomeço, e feliz pela ajuda que recebeu, Simone relata que o trauma deixado pelo incêndio é uma sequela difícil de recuperar e que, inclusive, está fazendo tratamento médico.
“É terrível você saber que perdeu tudo, e tenho medo de acontecer de novo, eu tenho pesadelos com isso, com alguém me ligando, exatamente como foi na noite do incêndio, para avisar que meu box está pegando fogo. Faço tratamento com psiquiatra, tomo remédio, senão não conseguiria seguir em frente”, explicou a camelô.
Para trabalhadores, caso deve terminar em impunidade do autor
Sobre o acusado de cometer o incêndio que destruiu os três boxes de camelôs, identificado como Maykon Chaves da Silva, 18, e que foi preso não pelo incêndio, e sim por ser acusado de ter agredido a mãe de 39 anos no dia 2 de setembro, os camelôs creem em mais um caso de impunidade.
“Ele devia ser punido trabalhando para alguma entidade por muito tempo, e não dentro da cadeia comendo e dormindo às nossas custas. Mas acho que ele nunca vai pagar pelo mal que nos fez, infelizmente. Pode ser uma pessoa doente, mas foi maldosa também, e deveria pagar pelo dano enorme que fez as famílias de pessoas trabalhadoras como nós”, disse Simone.
Para o camelô Waldomiro Cardoso, 44, que também teve o box incendiado e trabalha há oito anos no local, o acusado vai acabar ficando impune.
“Nem pelo incêndio que ele está preso, e sim pela agressão à própria mãe. Vai acabar impune, e não vai pagar pelo que fez. E nada impede que seja solto e volte a fazer de novo. Procuro não pensar que possa acontecer de novo, até porque o material a gente reconstrói. Mas ele devia pagar pelo que fez”, apontou Waldomiro.
Para Flávia Mariane Ribeiro, 20, que trabalha em um camelô ao lado dos que foram incendiados, a ação da polícia no caso foi falha.
“O cara [acusado] estava aqui na hora do incêndio, vendo os bombeiros apagarem o fogo. A polícia abordou ele, mas liberou depois, e ele fugiu do flagrante. E agora ao que parece ele nem vai responder pelo crime. É um absurdo, até porque nada impede dele ser solto e querer fazer isso de novo, então ficamos com medo”, ressaltou Flávia.
A ação da polícia e da Justiça também foram alvo de críticas de Simone. “Quando que ele vai pagar por esse crime? Essa é a pergunta principal. A polícia deixou ele escapar, isso foi uma falha no meu ponto de vista. E a Justiça também está falhando, porque nem vai dar nada para ele, infelizmente vai ficar por isso mesmo, e nós é que temos de conviver com o medo”, finalizou a camelô.
Na época do incêndio, Maykon Chaves da Silva chegou a ser detido pela Polícia Civil, e confessou o crime, afirmando em depoimento que ateou fogo em um jornal e arremessou contra os estabelecimentos. Segundo a polícia, Maykon, disse ainda que cometeu o ato não por vingança ou qualquer motivo contra os proprietários dos boxes, e sim porque estava bêbado.
Ele foi autuado por incêndio doloso, com pena prevista de três a seis anos de regime fechado, mas por não ter sido detido em flagrante, acabou liberado. Cinco dias depois, ele acabou preso acusado de agredir a mãe com golpes de pau, socos e chutes.

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