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Especial: Agressão de clientes e preconceito da sociedade são risco e desafio diário para travestis

24/08/2013 às 08h40
Por: Redacao Fonte: Dourados News
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O risco de vida para quem ganha a vida na rua e o preconceito, vindo de parte da sociedade que é ciente, mas se recusa a admitir a existência do grupo. Na terceira e última reportagem da série sobre o cotidiano das travestis que são profissionais do sexo em Dourados, o Dourados News aborda esses dois pontos de conflito do ponto de vista de quem o vivencia.

Conforme publicado pelo site no dia 1º de julho deste ano, dados do 2º Relatório sobre Violência Homofóbica 2012, elaborado pela SDH (Secretaria de Direitos Humanos) da Presidência da República e divulgado no dia 27 de junho, apontaram que de 2011 para 2012, houve aumento de 600% (13 denúncias em 2011 e 93 em 2012) nos casos de violações registradas contra a população LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) em Mato Grosso do Sul. (Clique aqui para ler a matéria).

A maioria das denúncias dos tipos de violência que foram registrados são psicológica (36), discriminação (31) e violência física (18). Conforme a AGLTD (Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados), a maioria das agressões que são de conhecimento da associação é relatada pelas aproximadamente 70 travestis que trabalham como profissionais do sexo.

A rotina de trabalho mais ‘difícil’ e ‘complicada’ que em qualquer outra atividade de trabalho, coloca em risco de morte grande parte das profissionais, que também são alvo de discriminação quando não estão no horário de expediente.

Com uma história de 10 anos de rua, a travesti Crislaine dos Santos, 32, é uma profissional do sexo aposentada da atividade, na qual atuou em Dourados, Campo Grande, e Cuiabá-MT. “É um risco de vida, até por isso que resolvi sair. Não tenho mais a paciência necessária para lidar com os desafios diários que a profissão exige. Hoje, pela idade, e também pela segurança, prefiro trabalhar em algo mais estável”, explica Crislaine, que atualmente trabalha em uma farmácia.

'Cris’, como gosta de ser chamada, protagonizou um episódio grave de violência, onde praticamente ‘nasceu de novo’. Em 1999, aos 19 anos, em um dia normal de trabalho um cliente ultrapassou o tempo programado, e não gostou quando ela avisou que cobraria mais do que o combinado inicialmente.

“Ele ficou bravo, e eu peguei o telefone para chamar a polícia, porque ele não queria pagar. Não vi o momento em que aconteceu, foi muito rápido, só me vi correndo pelo motel porque ele sacou uma arma e atirou duas vezes na minha direção”, conta a travesti, que foi atingida por um tiro de raspão na cabeça.

Essa, segundo ela, foi a situação mais grave que vivenciou, em meio a muitas outras em que acabou indo parar na delegacia depois de ‘sair no braço’ com clientes. “A maioria deles são homens casados, ricos, e usuários de drogas e álcool, que querem fazer com a gente tudo que não fazem com a mulher, um sexo agressivo, onde geralmente eles são passivos. Como você precisa do dinheiro, você acaba se sujeitando a muita coisa e se colocando em risco”.

Para Crislaine, o motivo do comportamento agressivo e perigoso de grande parte dos clientes que procuram sexo com as profissionais, é o comportamento da maioria das travestis.

“A maioria da classe são drogadas e vão para a rua preparadas para ‘dar balão’ na clientela. São poucas as que saem de boa com o cliente. Então o cliente que procura por isso várias vezes fica ressabiado quando é ‘vítima’ de uma travesti mal intencionada, que não cobra o combinado, e que ameaça revelar os encontros. Dourados é uma cidade pequena, então os caras ficam com medo e acabam reagindo mal, se comportando de modo agressivo, até com quem não faz isso”.

Agressão entre a própria classe

E entre as próprias travestis há casos de agressão. Isso é o que relata a presidente da AGLTD, Cláudia Assunção, que já foi profissional do sexo, é travesti, e certa vez se viu em meio a uma situação de risco que, conforme ela, a traumatizou.

“Uma vez fui a um bar, frequentado por esse público, e fiquei no meio de um tiroteio. Começou uma briga por causa de inveja, rivalidade, aquela disputa por quem é melhor, mais bonita, que existe. Do nada começou uma briga, uma ‘puxação’ de cabelo, e quando vi era um tiroteio e um cara morreu do meu lado. Desde então eu sou receosa de frequentar certos lugares, porque existem sim esses casos de agressão entre as próprias travestis profissionais do sexo ou não, por causa da questão da rivalidade”, apontou Cláudia.

A situação também foi relatada pela travesti Núbia Óliver, 22, que foi ouvida pelo Dourados News nesta série de reportagens. “Quando vou a festa é piadinha, implicância, provocação por uma ter uma condição melhor que a outra ou ser mais bonita. Tudo para incitar uma briga mesmo”, disse Núbia, que também relatou já ter sofrido várias agressões verbais.

Discriminação da sociedade

Além das agressões de clientes, outro fato com o qual as travestis que são profissionais do sexo têm de conviver é a discriminação. Tarefas simples do dia a dia, como ir ao banco, ao supermercado, entre outras, não são nada fáceis.

“As pessoas veem a gente como uma coisa suja, fingem que somos invisíveis e, quando não fazem isso, lançam aquele olhar de condenação. Quantas vezes já saí de fila de banco, de algum lugar, porque me senti discriminada. Em uma cidade pequena, então, a situação é bem ruim para quem trabalha na rua”, relata Cris.

Questionada sobre a possibilidade de isso mudar algum dia, a ex-profissional do sexo é cética.

“Dá para mudar, mas antes da sociedade mudar seu comportamento entendendo nossa condição, é preciso que as próprias travestis mudem. Se a classe mudasse o comportamento, se respeitasse mais e se unisse, poderia ser o começo de alguma mudança. Mas pelo que vivi e o que vejo, acho muito difícil”.

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