Sem verbas de subvenções sociais por não possuir o ‘título de utilidade pública’, a Casa do Renovo, localizada em Campo Grande, vive de doações voluntárias para recuperar cerca 81 dependentes químicos internados no local.
Ex-dependente química, a pastora Wainer Carvalho de Moura, de 48 anos, lamenta não poder contar com o apoio do poder público para dar continuidade a um trabalho que começou após sair do vício de drogas.
“Não temos apoio da Prefeitura, só vivemos de poucas doações”, queixa-se ela, que cuida da instituição localizada após o Aeroporto Santa Maria, na saída para Três Lagoas, na Capital.
Em funcionamento há três anos, a Casa do Renovo abriga 60 homens e 21 mulheres, além de 17 crianças na creche localizada no bairro Rita Vieira, segundo Wainer.
Ela conta que no momento a sua maior preocupação é colocar a documentação em ordem a fim de ter acesso a verbas públicas, caso a instituição seja reconhecida como de utilidade pública, título concedido constitucionalmente pela Câmara de Vereadores e pela Assembleia Legislativa.
Na prática, o título de utilidade pública é conferido a entidades, associações civis e fundações sem fins lucrativos e prestadoras de serviços à sociedade.
Com um funcionamento precário em uma área de 12 hectares - 6 da unidade masculina e 6 da feminina - a Casa do Renovo precisa de uma ampla reforma estrutural.
“Esse banheiro está interditado por causa da Vigilância Sanitária”, atestou a pastora ao mostrar as dependências do local, onde também funcionam precariamente alojamentos, cozinha e algumas salas nas quais os internos participam de atividades de cunho educativo visando a sua recuperação.
Segundo ela, está difícil dar continuidade ao projeto pagando R$ 3.700 por mês de aluguel, incluindo R$ 1.600 da unidade feminina, R$ 1.400 da masculina e R$ 700 da creche, fora outros R$ 700 de um brechó que rende alguns recursos para a instituição.
“Só na creche são R$ 200 de água e luz. Tínhamos apenas 12 contribuintes de R$ 250. Quer dizer, não dá para manter 60 homens aqui com cinco refeições diárias. É que aqui a gente graças a Deus ganha a alimentação”, garante, acrescentando que a Casa é beneficiada com doações de macarrão, arroz e trigo de supermercado.
Entre outros itens de uma lista de prioridades, Wainer diz precisar de materiais de construção e leite. “E dinheiro, é claro”, arremata a pastora, que além de pregar numa pequena Igreja instalada no local é considerada uma verdadeira “mãezona” das pessoas confinadas em uma área arborizada, entre as quais, crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Ela explica que, apesar de toda dificuldade, tem alcançado resultados positivos no papel de promover a recuperação e a reabilitação da pessoa por meio de programas terapêuticos cristãos, encontros, palestras e outras atividades
“A pastora tem um carinho muito grande pela gente, graças a Deus mudei minha vida”, conta um dos internos, que além do consumo de drogas fazia ‘ponto’ nas noites da Capital como travestir.
Um casal, que tem um filho e espera outro na Casa, também relatou como era sua vida antes e como é hoje depois que conheceu Wainer, uma mulher que por sete anos foi dependente de drogas e se envolveu com o tráfico.
Aliado a força de vontade e a disciplina, o interno tem de obedecer ao plano de recuperação da Casa, que é de no mínimo nove meses, com o direito de ressocialização a partir de análise e aprovação de equipe técnica.
Eles podem receber visitas semanais 30 dias após a internação, somente de parentes de primeiro grau, conforme reza a norma.
SOLIDARIEDADE
Apesar de conviver entre as dificuldades decorrentes da falta de estrutura e a burocracia do poder público para obtenção de recursos, a Casa do Renovo conta com a solidariedade de pessoas voluntárias e de algumas instituições consolidadas, como é o caso da Loja Maçônica Estrela do Universo Nº 33, filiada ao GOMS (Grande Oriente de Mato Grosso do Sul).
Apesar da discrição, membros da Loja estiveram no local no último sábado, dia 3, conversando com a pastora, a quem ofereceu apoio, por meio de donativos, conforme a reportagem testemunhou.
O Venerável-Mestre da Loja, Ronaldo Fernandes Viegas, foi ao local acompanhado de uma caravana para entregar cobertores, roupas, calçados e brinquedos. Comumente, a Maçonaria, que é uma instituição discreta, não costuma divulgar suas ações.
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