Vítima de um Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico, um adolescente de 16 anos, filho de um casal de trabalhadores rurais do município de Glória de Dourados, deu a pacientes que precisavam de transplantes de baço, rim e fígado uma nova chance de viver.
Os órgãos do rapaz, que foram captados na sexta-feira, no Hospital da Vida, em Dourados, foram levados para Brasília (fígado) e Campo Grande (baço e rim). Uma equipe médica de Brasília foi acionada para fazer a captação e transporte.
O procedimento foi o primeiro registrado este ano em Dourados e teve o apoio da CIHDOTT (Comissão Intra-hospitalar de Captação de órgãos e Tecidos para Transplante) do HV, de médicos do hospital e também do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Segundo a CIHDOTT, a família decidiu pela doação quase que no mesmo momento em que ficou sabendo da perda. “O pai do menino decidiu em menos de duas horas. Mas o trabalho de abordagem da família, que requer todo um cuidado e consideração com a situação difícil, foi feito a partir do momento em que eles tiveram conhecimento do diagnóstico irreversível”, explica o enfermeiro chefe do Pronto Socorro, e integrante da comissão, Joselito de Araújo Menezes.
O processo para captação de órgãos envolve uma sequência de acontecimentos. Após o iminente diagnóstico irreversível, a equipe da CIHDOTT, que conta com médicos, assistente social, psicólogos, e enfermeiros, é acionada para acompanhar a família. As alternativas são apresentadas aos familiares, que são conduzidos a tomar a decisão por permitir ou não a captação de modo voluntário. “Ninguém é pressionado a decidir por isso. Há o cuidado em compreender o tempo de luto, revolta, e aceitação que as famílias passam após a perda. O comportamento da equipe no respeito à dor, e na exposição da alternativa é determinante”, diz a assistente social Kelly Dalmaso Favero. A negativa da grande maioria das famílias se dá por questões religiosas e falta de confiança no procedimento.
Para a família do adolescente de Glória de Dourados, a doação dos órgãos foi uma opção declarada pelo rapaz em vida, e um conforto à dor da perda. “Nós fizemos o que ele queria. Ele disse que caso morresse, queria dar vida à outras pessoas. Nós decidimos isso com muito prazer. É uma dor que nunca vamos superar, mas Deus nos deu o conforto através desse ato de caridade”, afirmou o pai do menino, o trabalhador rural Darsi Cabreira Fernandes, 56. O adolescente era o único filho do casal, e a mãe, apesar de muito abalada, também concordou que a melhor alternativa era por autorizar a captação. “Não sabemos quem vai receber a doação. Mas sabemos que ao mesmo tempo em que estamos tristes com a morte dele, outras famílias estão felizes com a nova vida que seus filhos que precisavam de transplante terão”, pondera Fernandes.
Para a enfermeira Danielle Martins, integrante da comissão que acompanhou o caso, o principal mandamento é o respeito aos familiares, seja qual for a decisão. “Somos humanos acima de tudo. Compreendemos e respeitamos a dor da família, seja qual for a decisão o apoio é o mesmo”.
Em Dourados a última captação de órgãos registrada, segundo a CIHDOTT do Hospital da Vida, foi em 2011. A família de um homem de 40 anos que morreu no hospital após ser vítima de um acidente de carro em Ponta Porã, autorizou o procedimento. Conforme a comissão, somente a família autoriza a captação, mesmo que o parente tenha deixado a vontade de doar seus órgãos registrada em documento.
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