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Advogada de produtor rural classifica morte de adolescente indígena como fatalidade

27/02/2013 às 16h40
Por: Redacao Fonte: Dourados News
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A advogada Sueli Lima, que defende o produtor rural Orlandino Carneiro Gonçalves, 61, acusado de matar um adolescente indígena Denílson Barbosa, 15, no dia 17 passado na aldeia Te'yikue, em Caarapó, concedeu entrevista hoje (26) pela manhã ao Dourados News.

Ela afirmou que o caso foi uma fatalidade e que seu cliente tentou salvar o garoto, mas não conseguiu porque temeu represálias. No dia do crime, o menor foi encontrado caído com um tiro no ouvido, na estrada vicinal conhecida como ‘Pé de Galinha’.

A advogada ressaltou que o fazendeiro é uma pessoa íntegra e está passando por problemas financeiros e de saúde, e não tinha condições de contratar seguranças para cuidar da propriedade, como os indígenas alegaram durante a manifestação que realizaram no local na semana passada.

Confira trechos da entrevista:
Dourados News: Como o fazendeiro está?

Sueli Lima: O que ocorreu foi uma fatalidade, que poderia ter ocorrido com qualquer um de nós. Ele está em casa, sem as coisas básicas dele, que é a roupa, o calçado, o travesseiro.. ele não tem nada, nada, porque a casa foi invadida. (...) foi uma selvageria assustadora, inclusive com índios querendo matar cachorro com foice. (...) eles levaram tudo: freezer, geladeira, roupa, calçado, não sobrou uma tigelinha para nada.

DN: Ele não tinha capangas nessa área?

SL: Ele não tem condições econômicas de manter nem caseiro, essa área está praticamente arrendada para soja, além da soja ele tem só as vacas de leite, que fazem queijo e requeijão e vendem.

DN: Fica difícil para defendê-lo, já que ele é réu confesso?

SL: É claro que ele assume, mesmo porque ele quer que a coisa seja levada de uma forma segura,certa, correta. A gente vai esperar a justiça porque é um homicídio. Esta fatalidade poderia ter acontecido com qualquer pessoa, aconteceu com ele, e ele não nega. Ele deu dois tiros para assustar quem tivesse no açude e ele nem sabia que eram índios. Tudo que a imprensa está dizendo é inverídico, não houve espancamento. Para conseguir tirar este menino numa caminhonete, ele colocou-o na carriola e (..) tentou salvá-lo. Em momento algum ele foge da responsabilidade, tentou socorrer, mas não conseguiu. Então assume que fez, ele assume que ele não é bandido, ele assume que não tinha intenção de matar ninguém**.

DN: O que aconteceu naquela noite?

SL.: Ele assistiu o Jornal Nacional, era então coisa de 8h da noite, sozinho em casa, porque a mulher dele estava na casa da filha, que morava próxima. Ele ouviu os cachorros latindo, pegou a espingarda e foi dar uma andada, normalmente quem está lá, ouve e corre. E ele saiu, como os cachorros estavam muito bravos ele deu dois disparos com esta arma, que é uma arma de 80 anos, não tem mira, velha e está entregue à polícia, a única arma que ele tinha em casa. Depois desses dois disparos ele viu que o cachorro continuou latindo do outro lado da lagoa, aí ele voltou pegou a lanterna e deu a volta, quando voltou se deparou com uma pessoa caída e viu que era um indígena. Então neste momento gritou por socorro, porque haviam várias varas de pescar jogadas na lagoa, então ele entendeu que tinha mais gente, gritou, mas não apareceu ninguém. Ele conseguiu colocar o garoto numa carriola, que ele transporta ração para os bichos, da carriola ele colocou na caminhonete e partiu para Caarapó, atrás de um hospital. Mas ali próximo ele avistou um grupo que vinha em sua direção. Então ele temeu pela vida, e deixou o menino, segundo ele ainda com vida, e pensou ‘eles vão encontrar e vou correr se não eles vão me pegar’, então ele voltou em casa, fechou-a e foi à procura da esposa.

DN: As testemunhas dizem que tinham três pessoas?

SL: Eu não sei onde eles acharam isso.

DN: Surge o comentário que os índios estariam sofrendo algum tipo de ameaça, represarias, que carros estariam circulando na fazenda, que disparos teriam sido efetuados no local, como que a defesa vê toda essa situação?

SL: É inverídica e faz parte da montagem que eles estão fazendo para virar um conflito agrário. Inclusive ele é produtor, nós poderíamos estar com a classe dos produtores todos juntos reivindicando... Está todo mundo quieto, porque não há conflito agrário, se houvesse nós pediríamos até socorro para o Sindicato Rural, mas não foi o caso. O que a gente quer é que a justiça seja feita em cima da verdade dos fatos.

DN: Eles já tinham tido problemas com indígenas naquela propriedade rural?

SL: Já, pequenos furtos. O furto maior foi de uma vaca de leite que tinham lá, que inclusive gerou um processo e eles confessaram que tinham matado a vaca. Porcos, o produtor não criava mais na propriedade com medo da encrenca, porque o índio vinha furtar. O relacionamento dele com os indígenas era interessante, eu sou prova disso, porque ele sempre se deu bem com a ‘turma dalí’, ele nunca teve problema.

DN: Já pediu a reintegração de posse, como está a situação?

SL: Já pedi a reintegração de posse, foi distribuído para a Primeira Vara de Caarapó e os autos estão sendo encaminhados para a Justiça Federal.

DN: O produtor está sofrendo problemas de saúde depois dos fatos?

SL: Ele já era hipertenso e a situação se agravou, está sendo medicado. Ele está com problemas financeiros e de saúde. Não está escondido, ele está em casa de parentes. Esperamos que a justiça seja feita, porque mesmo aqui em Caarapó se sair perguntar quem é o Orlandino não vai encontrar ninguém que diga mal dele, ele é uma pessoa limpa, íntegra, simples, humilde, que reside na propriedade há mais de 50 anos. Ele está à disposição da justiça, por isso acreditamos que não haja a decretação da prisão. Se apresentou voluntariamente por duas vezes e está a disposição da justiça.

DN: A área não faz parte de estudo antropológicos?

SL: Tenho inclusive reportagens da própria Funai dizendo que aquela terra não era objeto de litígio, que aquela terra não era para estudos antropológicos . O que nós estamos tratando é de um homicídio, uma morte ocasional, é um crime sem dolo.

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