Os cinquenta anos do golpe militar, cujo regime se estendeu por mais de 20, tem dominado a agenda do país nos últimos meses. São atos, protestos promovidos por correntes, pró e contra, lançamento de livros, matérias especiais na mídia, entrevistas de personalidades e personagens dos dois lados da moeda, cadernos e até edições especiais de jornais como a histórica da Folha Online.
Alguns episódios apesar da distância temporal, embora não menos traumáticos ganham destaque pela frieza e indiferença até com que retratam este passado tão doloroso para a nação. Refiro-me ao depoimento de um militar que teria participado da morte do deputado Rubens Paiva e de outras pessoas contra o regime. Impressiona pela indiferença com que tal regime tratou e deu cabo da vida de muita gente, aliás, prática comum em todas as ditaduras, seja de direita ou de esquerda.
Instalaram inquéritos para apurar mortes de civis em prédios militares, fizeram sessões no Congresso, nas Assembleias e Câmaras país a fora, enfim, um verdadeiro caleidoscópio de ações e situações dos mais diversos matizes para lembrar o que ocorreu neste período nem tão distante assim, principalmente se considerarmos em termos de história. Pois a história precisa do seu tempo para analisar e reconstruir seu próprio tempo a fim de remontar e recontar os fatos que fazem a memória de um povo.
Quando o golpe se deu, eu tinha nove anos e morava no interior do Ceará, onde a noite era iluminada por lampião a querosene e pelo brilho da lua, embora o discurso do governo fosse centrado na dicotomia ordem-progresso. O rádio, uma novidade na comunicação, acessávamos depois de percorrer quase duas léguas de caminhada, nas noites de lua cheia. O único do lugar era na casa de um tio abastado. Eu ficava me perguntando, em pensamento, como um homem conseguia ficar dentro daquela caixa, falando sem parar.
Anos depois, estudando em Fortaleza, ainda na década de 60, a preocupação da minha família era com movimentos dos estudantis na frente do Liceu, onde os secundaristas sempre faziam passeatas. Mas que eu passasse direto. Participar de passeata junto com outros colegas estudantes, nem pensar. Havia muito medo da repressão!
No início dos anos 70, ao entrar para o serviço militar, o centro do regime, a preocupação era com os terroristas. Nas paredes, cartazes com várias fotos de homens e mulheres com feições pouco aparentadas, com uma tarja em vermelho escrito “procurados”, mais me lembrava os filmes de bang-bang, onde os cartazes “procura-se vivo ou morto” em referência aos mocinhos como Sartana, Ringo e Django, guardavam certa semelhança, no meu imaginário.
Só depois de algum tempo no Rio de Janeiro, por ocasião dos estudos no segundo grau e faculdade é que comecei a me interessar pela história e personagens que fizeram a luta armada no país. Comecei a ler tudo sobre o assunto. O processo de abertura política, a chegada dos exilados no Brasil, os livros do Gabeira, eram assuntos que eu devorava. Era como se eu quisesse recuperar o tempo perdido, me informando sobre tudo que ocorrera enquanto o país mergulhara na lira dos “Pra frente Brasil...salve a seleção!”
Vivemos um período interessante da nossa história. Temos a oportunidade de passar a limpo nossa história, mas é preciso não confundir as coisas, tampouco os papeis. Não sejamos ingênuos! É preciso separar o joio do trigo. Há muitos interesses pretensamente difusos nesses movimentos atuais, mas com intenções que se sabe muito bem, onde determinados segmentos da sociedade querem chegar. A lição não pode ser esquecida. Vamos entender a história, mas para afastar o fantasma da ditadura, seja ela de que lado for. A democracia pode não ser perfeita, mas ainda é o regime político menos desigual!
Fecho com Curchill, que disse “sendo um mau regime, a democracia é o melhor de todos, pois é o único que fornece ao povo instrumentos que lhe permitem mudar o que está mal”. A nossa democracia é recente e ainda passa pelo processo de amadurecimento, mas cabe ao povo se esclarecer para depurá-la.
Para refletir: “Quando o passado não ilumina o futuro, o espírito vive em trevas.” (Charles Tocqueville).
*Jornalista, mestrando em Comunicação pela UFMS, escreve todas as quartas seu Ponto de Convergência no Dourados News. email: [email protected].
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