O esquema de corrupção investigado pela nova fase da Lava Jato aconteceu ao mesmo tempo que o mensalão, segundo integrantes da força-tarefa da Lava Jato. Inclusive, há personagens em ambos casos, como Marcos Valério e José Dirceu, e também a participação do pecuarista sul-mato-grossense e principal controlador da Usina São Fernando em Dourados, José Carlos Bumlai (todos estão presos).
A afirmação, segundo o portal UOL, foi feita durante entrevista coletiva de promotores e policiais federais nessa sexta-feira (1) para contar mais detalhes sobre a 27ª fase da Lava Jato, chamada de Carbono 14.
A nova operação da Lava Jato aprofunda investigações de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Schahin, o PT, a Petrobras e empresários. Duas pessoas foram presas nessa sexta (1): o ex-secretário do PT Silvio Pereira, o Silvinho do PT, e o empresário paulista Ronan Maria Pinto, dono do jornal "Diário do Grande ABC". Outros dois foram alvos de condução coercitiva (quando o investigado é levado para depor e liberado): o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o jornalista Breno Altman, diretor editorial do site Opera Mundi.
Além de provas. a investigação contou com a confissão de dois dos "principais envolvidos nos crimes": Salim Taufic Schahin e Bumlai. O dirigente do banco disse que teve reuniões com Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, e que, de maneira cifrada, foi sinalizado por José Dirceu, então ministro da Casa Civil, que o empréstimo a Bumlai seria destinado ao PT.
Mensalão era o esquema de pagamento de propina a parlamentares para que votassem a favor de projetos do governo. Foi o principal escândalo no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"Há realmente, do meu ponto de vista, alguma ligação. Não é o mesmo esquema, mas são esquemas relacionados. Se você observar a época dos fatos, esse esquema do mensalão consistia em empréstimos fraudulentos junto ao banco rural e ao Banco BMG em troca de favores do governo", afirmou o procurador da República, Diogo Castor de Matos.
"Posteriormente, as instituições financeiras eram agraciadas com algum favor do governo federal. O Banco Schahin era uma situação parecida. Estamos analisando fatos de outubro de 2004, o mensalão veio à tona em maio de 2005. Esse esquema ocorreu concomitantemente ao mensalão, então por isso você vai ter alguma recorrência de alguns personagens, como o Marcos Valério. Segundo o Marcos Valério, o Silvio Pereira (ex-secretário do PT) teria o procurado em 2004 para operacionalizar mais o esquema de capitais", completou o procurador da República. O empresário Marcos Valério foi considerado o principal operador do mensalão e está preso.
A 27ª. Fase
A nova operação foi intitulada Carbono 14 em referência a procedimentos utilizados pela ciência para a datação de itens e a investigação de fatos antigos.
Essa nova investigação aprofunda o esquema de lavagem de dinheiro de cerca de R$ 6 milhões por gestão fraudulenta do Banco Schahin, "cujo prejuízo foi posteriormente suportado pela Petrobras", segundo o Ministério Público Federal.
Em novembro passado, após ser preso, o empresário pecuarista Jose Carlos Bumlai, amigo próximo do ex-presidente Lula,admitiu em depoimento que o empréstimo de R$ 12,17 milhões captado em outubro de 2004 no Banco Schahin foi repassado para o caixa 2 do PT e metade desse valor transferido para Ronan Maria Pinto. Esse empréstimo nunca foi pago, diz o despacho do juiz Sergio Moro, de Curitiba.
Nessa sexta, o MPF diz que foi realmente constatado o que disse Bumlai. "A verdadeira causa para a quitação da dívida seria a contratação da Schahin pela Petrobras para operação do navio-sonda Vitória 10.000, o que ocorreu em 28 de janeiro de 2009", diz o MPF. O contrato entre banco e a estatal foi de dez anos, prorrogáveis por mais dez anos, com valor global de quase US$ 1,6 bilhão. "Houve direcionamento da contratação da Schahin baseado em razões técnicas fraudulentas", diz a nota.
O Ministério Público completa ainda: "Agentes da Petrobrás, o diretor da Área Internacional Nestor Cervero, o sucessor dele Jorge Luiz Zelada e Eduardo Costa Vaz Musa, gerente da Área Internacional da Petrobras, teriam sofrido influências políticas, por agentes não totalmente identificados, para direcionar, fraudulentamente, o contrato para a Schahin e assim garantir a concessão de vantagem indevida ao Partido dos Trabalhadores (mediante a quitação do empréstimo concedido à referida agremiação política)."
Celso Daniel
Os promotores disseram que essa fase da operação visa apenas o crime federal de lavagem de dinheiro, sem qualquer relação com o assassinato do prefeito Celso Daniel.
"Basicamente o objeto de nossa investigação é o crime federal de lavagem de dinheiro. Nosso objeto é mais restrito que poderia ser da Justiça Estadual de São Paulo, investigamos aqui o crime de gestão fraudulenta do Banco Schahin. Os demais desdobramentos referentes a Santo André, cabe ao MP estadual. Em princípio, nosso objetivo é esclarecer a lavagem de dinheiro".
Celso Daniel foi sequestrado no dia 18 de janeiro, uma sexta-feira, ao sair de um restaurante na zona sul de São Paulo. Seu corpo foi encontrado dois dias depois em uma estrada de Juquitiba, na região metropolitana.
Outro lado
Em nota, a assessoria de imprensa do Ronan disse que o empresário reafirma não ter "relação com os fatos mencionados" e que está "sendo vítima de uma situação que com certeza agora poderá ser esclarecida de uma vez por todas".
O texto diz ainda que "há meses reafirmamos que o empresário Ronan Maria Pinto sempre esteve à disposição das autoridades de forma a esclarecer com total tranquilidade e isenção as dúvidas e as investigações do âmbito da Operação Lava Jato".
Procurados pelo UOL, os advogados de Delúbio Soares e Silvio Pereira, assim como a assessoria do PT, ainda não se manifestaram sobre o caso.
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