
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançará suas primeiras cultivares de hortaliças do grupo das Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc), ampliando a oferta de alimentos considerados altamente nutritivos, adaptados às mudanças climáticas e com baixa necessidade de insumos agrícolas. As novidades serão apresentadas durante a Hortitec 2026, uma das maiores feiras de horticultura da América Latina, realizada entre os dias 17 e 19 de junho, em Holambra (SP).
As cultivares lançadas são a bertalha BRS Tereverde e o caruru BRS Ilekalu, desenvolvidas a partir de materiais genéticos conservados há mais de duas décadas pela Embrapa Hortaliças, em Brasília. O objetivo é estimular a produção comercial dessas espécies e fortalecer cadeias produtivas ainda pouco estruturadas no Brasil.
Segundo o pesquisador Nuno Madeira, responsável pelo trabalho, a disponibilização de sementes certificadas e recomendações técnicas de cultivo pode ampliar significativamente o consumo e a produção dessas hortaliças.
“A expectativa é fortalecer a presença das PANC na agricultura familiar e na agricultura urbana, seja em quintais produtivos, hortas domésticas ou escolares”, afirma.
As Plantas Alimentícias Não Convencionais reúnem espécies com elevado potencial alimentar e nutricional, mas que ainda não fazem parte do consumo cotidiano da maioria dos brasileiros. Além disso, costumam apresentar características valorizadas pela agricultura moderna, como resistência a pragas e doenças, adaptação a diferentes condições climáticas e menor dependência de fertilizantes e defensivos agrícolas.
De acordo com a Embrapa, essas características tornam as PANC uma alternativa interessante para sistemas produtivos sustentáveis e para agricultores que buscam diversificar a produção. As espécies também carregam forte valor cultural, já que muitas delas fazem parte da culinária tradicional de diferentes regiões do país.
A cultivar BRS Tereverde é a primeira variedade de bertalha desenvolvida com padrão genético definido e foco em produtividade. Conhecida também como espinafre-de-malabar, a hortaliça se destaca pela capacidade de produção durante os meses mais quentes do ano, suportando temperaturas entre 35°C e 40°C.
A recomendação é iniciar a colheita entre 60 e 90 dias após o plantio. Em áreas comerciais, a produtividade observada variou entre 40 e 60 toneladas por hectare, com possibilidade de até seis cortes sucessivos durante uma mesma safra.
Além da resistência ao calor, a bertalha é rica em fibras, vitaminas A e C, cálcio e ferro. Outro diferencial é a durabilidade pós-colheita, mantendo qualidade para consumo por cerca de quatro dias mesmo em temperatura ambiente.
Já a BRS Ilekalu é a primeira cultivar de caruru selecionada especificamente para consumo como hortaliça folhosa. Um dos principais atrativos é o elevado teor de proteína nas folhas, que alcança 33,8%.
A cultivar também apresenta rusticidade e adaptação a diferentes tipos de solo e condições climáticas, permitindo cultivo ao longo de praticamente todo o ano em regiões de clima quente. Outro diferencial é o florescimento tardio, característica que facilita o manejo e reduz o risco de disseminação da planta por sementes.
A colheita pode ser realizada entre cinco e sete semanas após o plantio, período considerado curto em comparação a outras hortaliças folhosas. O consumo, no entanto, deve ser feito após o cozimento, o que melhora a digestibilidade e o aproveitamento dos nutrientes.
O lançamento da bertalha e do caruru faz parte de uma parceria entre a Embrapa e a Isla Sementes. A expectativa é que novas cultivares de PANC cheguem ao mercado nos próximos anos, incluindo espécies como almeirão-roxo e vinagreira.
Para a Embrapa, o avanço dessas culturas pode contribuir para diversificar a alimentação dos brasileiros, ampliar oportunidades para agricultores familiares e fortalecer sistemas produtivos mais resilientes diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.