Geral Mulher no Agro
Lilian redesenhou o futuro da pecuária com primeiros clones do Brasil
Para a mulher que contribuiu para redesenhar o futuro da pecuária no Brasil através da clonagem bovina, a vida no campo é sinônimo de memória afetiva e ciência.
15/05/2026 10h55
Por: Redação Fonte: Dourados News
A médica veterinária e doutora em biologia molecular Lilian Tamy Iguma, em seu laboratório em Dourados - Crédito: Clara Medeiros / Dourados News

Para a mulher que contribuiu para redesenhar o futuro da pecuária no Brasil através da clonagem bovina, a vida no campo é sinônimo de memória afetiva e ciência. Com família de Dourados, Lilian Tamy Iguma, 52 anos, se considera uma filha da terra para onde se mudou de Brasília (DF) com um ano de idade.

Com pais e irmãos médicos, Lilian pegou gosto por outra vocação familiar: o agronegócio. A primeira área adquirida pelos pais era pequena, mas já ‘tocada’ com visão tecnicista. Foi ajudando no plantio e na lida com bovinos, que ela decidiu cursar Medicina Veterinária.

“A gente é do agro não só no laboratório, não é só na pesquisa. Esse roxo aqui [diz apontando para o braço] é de ir para o mangueiro esse final de semana”, relata.

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Após a graduação na UFV (Universidade Federal de Viçosa), Lilian se especializou em biotecnologia de embriões de animais na Universidade de Hokkaido, no Japão.

Com sua experiência em FIV (Fertilização In Vitro), biotecnologia japonesa, Lilian foi inserida pelo Dr. Rodolfo Rumpf no grupo de pesquisa de clonagem animal da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, onde era aplicada a mesma técnica que resultou na ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado com células somáticas no mundo.

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OS PRIMEIROS CLONES

A pesquisadora fez mestrado em biologia molecular, assim como o doutorado em que foi a primeira orientada desenvolvendo a transferência nuclear de células somáticas. “Os resultados da minha tese de doutorado foram os nascimentos dos primeiros clones de bovinos do Brasil”, ressalta, sobre o trabalho que entrou na vanguarda da reprodução animal no país.

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Ela integrou o grupo responsável pela vaca ‘Vitória da Embrapa’ em 2001 e por ‘Vitoriosa’, clone de Vitória, o primeiro ‘clone do clone’ da América Latina; além de Lenda, com experiência a partir de células somáticas de vaca morta.

Diferente de Vitória e Vitoriosa, Lenda permanece viva, assim como Porã e Potira, clones da raça Junqueira, ameaçada de extinção. Essas duas resultaram de um experimento utilizando células da orelha de uma vaca de nove anos da raça que teve os recursos genéticos conservados no banco de germoplasma da Embrapa.

Tese defendida pela pesquisadora com imagens dos clones com os quais trabalhou na capa. Foto: Clara Medeiros.

Hoje a única empresa do país que faz clonagem bovina comercialmente, é gerenciada por Rumpf que usa a tecnologia desenvolvida no doutorado de Lilian, cuja pesquisa foi fundamental para validar estudos feitos na área e basear protocolos do setor.

“Como a gente diz no campo, o que vale no final das contas, em todas as biotecnologias, em todas as tecnologias, é o bezerro no chão, nascido saudável. Então como validou, a gente pode transformar isso num produto comercial”, pontua.

A clonagem beneficia o setor produtivo à medida em que consegue multiplicar, por exemplo, vacas extremamente valiosas em termos genéticos, mas que nascem com um número finito de material para fornecer. Isso implica tanto em manter o padrão de raça, quanto em questões produtivas e reprodutivas.

FERTILIZAÇÃO

Lilian também foi pesquisadora da Embrapa Gado de Leite por dez anos em Juiz de Fora (MG) e há 20 anos é empresária. Ela comanda uma empresa de Fertilização in Vitro que está na base de todas as outras biotecnologias no laboratório de reprodução. Atualmente, aplica para animais de elite, principalmente raças de corte, sendo 80% Nelore. Em analogia, diz que faz “bezerros de proveta”, com a técnica que revolucionou o mercado da pecuária tornando as vacas mais valiosas.

No campo, Lilian tem criação de gado da raça Brangus e, em sociedade, de Texas Longhorn, além de ter projeto para produzir carne premium a exemplo do pai.

Ela ainda possui em sociedade dois apiários que atualmente produzem a marca de mel mais vendida em uma das maiores plataformas de e-commerce que atuam no Brasil. O planejamento é construir um entreposto em Dourados para produtos apícolas.

PESQUISAS E PROJETOS

Mesmo ligada ao setor empresarial, Lilian nunca deixou a pesquisa de lado, inscrevendo seu laboratório em projetos sempre que tem oportunidade. Ela trabalha, por exemplo, junto ao ProLeite (Plano Estadual de Desenvolvimento da Bovinocultura Leiteira), oferecendo tecnologia para pequenas propriedades com foco em aumentar a produção e renda das famílias.

Para ela, é um aspecto social que significa a democratização do acesso às biotecnologias. “Nós vamos fazer parcerias e tentar colocar a melhor genética dentro do Estado, seja para gado de corte ou de leite”, pontua, lembrando que um de seus desejos é projetar Dourados para o país.